Tempestades Neurais


09/09/2005


Uma quase história de amor
Ele ainda estava no escritório, estava sozinho, já passava do horário do expediente e era sexta-feira. Todos já haviam saído. Pensava em taxas de investimentos, juros, ações. Queria adiantar alguma coisa para a segunda-feira ser menos traumática. Ainda mais, ele não tinha nenhum compromisso para aquela noite, não faria diferença estar ali ou em outro lugar. Uma hora resolveu parar, pensou em sua vida, se deveria aceitar aquela proposta de um novo emprego, se deveria comprar aquela televisão de última geração, e que estava precisando, urgentemente, de roupas novas. Lembrou-se então que precisava de um amor. Precisava não, ele tinha um, precisava que apenas se tornasse realidade. Abriu a foto e lá estava ela, com seu corte de cabelo simples mas belíssimo, aquele sorriso encantador e aquele olhar que ele nunca mais esqueceu. Abriu o blog dela e lá estavam palavras, frases, versos e outra foto. Lia tudo aquilo como se ela dissesse aquilo em seu ouvido. Lembrou da voz. Lembrou de quando se encontraram, naquela noite. Naquela boate, ele fingiu esbarrar nela para puxar assunto. Lembrou dos olhos dela, de como ele sempre procurava o olhar dela com o seu, e como ela sempre insistia em resistir. Lembrou-se daquele final de semana prolongado, naquela casa de campo, estava frio e foi tudo tão intenso, tão romântico. Apenas os dois. Até os silêncios estavam cheios de amor e paixão. Nunca mais esqueceria ela, mas ela o esqueceu. Resolveu mandar mais um e-mail, o último do dia. Sabia que ela não responderia, como a todos os outros que ele enviou. A única intenção destas mensagens era ela saber que ele ainda pensava nela. Que aquela paixão ainda existia. Por que se separaram?!? Não sabia dizer, não houve brigas, não houve discussões. Ela apenas havia sumido. Afrouxou a gravata, o ar condicionado estava quebrado, mas não era este o motivo daquele sufoco. Era saudades. Desligou o computador, apagou s luzes, pegou seu paletó e foi embora, com o peito apertado daquela saudades que lhe doía. Chegou em casa, ligou a televisão em algum canal qualquer, falavam do problema da superpopulação da China Ocidental, tomou um banho, comeu o resto da janta de ontem no sofá, em frente a televisão, e foi dormir ao som de Morphine e Portshead. Os olhos cheios de lágrimas, pensando nela. Sonhou com ela naquela noite.


Ela estava muito longe dali. Estava num bar, numa reunião de amigas, num happy hour. Estava com mais três amigas. Ela bebia suco de laranja, as outras pediram cada uma sua bebida de preferencia. Uma um guaraná com laranja, outra coca-cola e outra pediu cerveja. Falavam dos problemas do trabalho, de homens, de mulheres, de moda, de política, de blogs, amigos virtuais, outros nem tanto virtuais, outros nem tantos amigos. A que pediu cerveja queria falar de sua última viagem. A da coca-cola queria falar do seu grande amor, que acabou de achar. A do guaraná de suas noites quentes com o namorado. Ela não queria falar nada. Apenas pensava nele e em suas várias mensagens por dia. Lembrava daquela noite, daquele esbarrão, que ela tinha certeza ter sido proposital. Lembrou de como os dois trocavam olhares. Lembrou do encontro naquela casa retirada. Ela sentia frio e ele sempre a esquentava. O final de semana mais romântico de sua vida. Estavam sozinhos e sozinhos ficaram durante o final de semana inteiro, como que em um desespero para se amarem, como se o mundo fosse acabar assim que se separassem. Lembrou do olhar maroto dele, do jeito de garoto, mas com uma postura madura, como quem sabe muito bem onde pisa. Queria que tudo aquilo voltasse a ser verdade, queria que ele estivesse ali, ao lado dela. Queria levantar naquela mesa e gritar. Gritar que amava aquele homem, que sairia dali agora, e iria procurar até o fim do mundo a sua paixão, e repetiria aquele final de semana. Mas se conteve e falou apenas dos problemas com o chefe babaca. Continuaram as quatro, por horas, conversando, sempre acompanhadas de gargalhadas e suas bebidas. Encerraram a conta, dividiram a despesa igualmente entre as quatro. A do guaraná foi para casa parater mais uma noite picante com o namorado. A da coca-cola foi para alguma boate movimentada, para dançar a noite inteira. A da cerveja foi visitar alguma amiga ou prima. Ela simplesmente foi para casa. Chegou, cansada e desanimada, mesmo depois de horas de uma conversa divertidíssima. Ligou o computador e o rádio, tocava alguma música antiga. Deu comida para a sua gata, que foi lhe receber já na porta. Tomou um banho. Cuidou do cabelo, do corpo, da pele, como toda mulher vaidosa faria. Comeu algo leve em frente ao computador, conferindo os e-mails. Várias mensagens encaminhadas, piadinhas, spams. E sim, lá estava o que ela queria, mensagens dele. Três mensagens hoje, não, quatro, cinco, seis....... sete. Sete mensagens em apenas um dia. Era sempre assim, várias mensagens, uma mais romântica que a outra e ela nunca respondia. E nunca soube o porque de não responder. Estava decidida, hoje responderia. Abriu a última mensagem, clicou em Responder e começou a digitar. Desligou o computador assim que enviou a mensagem, hoje não escreveria nada em seu blog, não responderia mais ninguém, nem conversaria com pessoa alguma. Colocou Cranberries para tocar e foi dormir, pensando nele. Não sonhou naquela noite.

E então, como deve ser o final desta história?!?

 

 

Escrito por Thi às 22h54
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