Tempestades Neurais


09/10/2005


 

Naquele Dia Não...

 

Acordou cedo aquele dia, como em todos os dias. Ao som irritante do despertador. Desligou-o com um tapa. Sentou em sua cama e acendeu um cigarro. Não! Aquele dia não! Não iria trabalhar, não sairia de casa, não sairia da cama. Naquele dia não chovia, mas também não estava quente. O céu estava em tons de cinzas e o vento fazia as folhas das árvores da vizinhança cantarem. Naquele dia não sairia da cama. Não enfrentaria o transito que lhe sempre subia a pressão arterial. Não tomaria o café ruim a caminho de seu emprego, nem comeria nada. Naquele dia não sairia da cama. Não bateria cartão e não teria de suportar chefes. Não sentaria em sua cadeira, em frente à sua ferramenta de trabalho, um PC. Não! Naquele dia não sairia da cama. Não teria que fingir simpatia com seus colegas de trabalho, não haveria e-mails, reuniões, telefonemas. Acendeu outro cigarro, mas naquele dia não sairia de sua cama. Não almoçaria naquele restaurante cheirando a gordura, nem teria que agradecer ao serviço mal prestado pelo garçom. Não teria que olhar para o relógio de minuto em minuto esperando dar o horário de sair das grades de seu ganha pão. Naquele dia não sairia da cama. Não tomaria sua cerveja ao final do dia com os “amigos”, e não teria que aturar aquela falação da vida dos outros e principalmente, das outras. Não teria que negar pedidos de sair com mulheres fúteis e fáceis, “amigas” de seus “amigos”.  Não teria que ouvir eles se vangloriando de noites “inesquecíveis” com mulheres pagas. Não! Não sairia da cama! Outro cigarro queimava em sua mão. Não teria que voltar para casa preocupado com assaltos, contas a pagar, as pendências para amanhã. Não teria que alimentar o cachorro, nem requentar a sua janta. Não ligaria o chuveiro para mais um banho. Não sairia da cama naquele dia. Não haveria namorada, amante, mulheres graciosas pelas ruas. Não haveria empregada a limpar a sua casa, nem policiais a apitar nas esquinas. Não haveria ambulâncias em seu retrovisor nem sinais vermelhos, amarelos, verdes.  Não haveria a espera pelo elevador, nem filas no supermercado, não haveria meninos com malabarismos nos semáforos.  Naquele dia não! Naquele dia não sairia da cama. Outro cigarro. Não! Outro não, devolve ao maço, deita, encosta sua cabeça no travesseiro, tira o telefone do gancho e fecha os olhos. Logo adormece e já começa a sonhar. Sonha com princesas em castelos europeus, num dia de sol quente. Sonha que está a viajar nas costas de um mamute em plena era glacial, gelo e neve por todos os lados. Sonha muito. Sonha! Mas naquele dia não sairia da cama. Aquele dia não existiria em sua vida.

 

 

 

Escrito por Thi às 14h35
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