Tempestades Neurais


17/10/2005


Silêncio

 

Tudo era silêncio naquele apartamento.

Os passos no corredor eram silenciosos, como passos de alguém que chega em casa de madrugada.

A música que tocava no rádio era silenciosa, como se apenas tocasse dentro de nossas cabeças, como se fossem lembranças de um outro tempo.

Alguém na cozinha também era silêncio. Tão ali do lado, mas ao mesmo tempo tão distante.

Os carros que passavam na rua, alguns andares abaixo, não pertenciam ao nosso mundo. O barulho que nos chegava era apenas como uma vibração numa freqüência inaudível.

O Sol já tinha se posto, também silenciosamente, fazia poucas horas.

O horizonte, que da janela não era uma linha reta como num mar, mas sim forrado de pequenos morros, continuava em seu lugar, em silêncio. Não era um horizonte retilíneo, era um horizonte serrilhado, sem uma forma definida, onde, com muita imaginação, poderíamos ficar horas a distinguir formas conhecidas nos contornos daquela pequena cordilheira.

Por detrás deste horizonte já se via os primeiros contornos de uma lua amarela, quase dourada, enorme, a surgir em silêncio, por entre picos e vales.

Algumas nuvens silenciosas aqui e acolá, a obstruir apenas poucas estrelas, davam um ar ainda mais bucólico à noite, como se estivéssemos numa casa de campo, em silêncio. Mas não. Estávamos em meio à um barulho urbano incrivelmente silencioso, a alguns andares acima de um gramado verde qualquer. A alguns andares acima de alguma árvore que serve de morada para alguns pássaros. Andares, todos estes, em silêncio.

O mundo seguia sua rotina, com seus ruídos, barulhos, musicas e vozes, mas tudo era silêncio no nosso mundo. Não um silêncio fúnebre, mas um silêncio onde as almas apaixonadas conseguem se comunicar, onde conseguem fazer ouvir a sua voz.

E nosso mundo era aquela sala que estávamos. Deitados no chão em silêncio. A olhar um nos olhos dos outro. A ignorar a rotina frenética do lado de fora, de fora de nós dois.

Com olhares não precisávamos de palavras.

Aliás, não precisávamos de nada, não precisávamos do cotidiano daquela cidade fria, não precisávamos dos outros, não precisávamos de comida, não precisávamos do espetáculo do sol, da lua, da natureza. Precisávamos apenas de beijos e abraços. Precisávamos apenas que nossos corações permanecessem numa mesma batida, num mesmo ritmo. Precisávamos apenas estar ali. No chão. Próximos. Tão próximos a ponto de eu sentir sua respiração.

O que precisávamos era que o relógio parasse, e então, tudo seria mais silencioso, tudo seria mais calma, e nossos corações poderiam, então, ser somente amor, paixão, desejo. Nossos olhos poderiam ser luz, nossos sorrisos vida, e nosso beijos e abraços mais eternos.

E nosso sentimento poderia então ser verdade.

E nosso mundo se materializaria.

Escrito por Thi às 17h13
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